Quarta, 11 Janeiro 2017 13:45

'La la land' tem bela autocelebração de Hollywood e 'melhor casal'

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Ryan Gosling e Emma Stone brilham em musical que ganhou o Globo de Ouro e é favorito para o Oscar. Filme de Damien Chazelle tem pré-estreias no Brasil neste quinta-feira (12).

 

Assista ao trailer de 'La la land: Cantando estações'

Você não gosta de musical, tem preconceito mesmo, acha bizarro aquela gente que, do nada, sai cantando no meio do filme e dançando coreografias com sorriso de propaganda e aí, justamente por isso, vai desprezar “La la land: Cantando estações”? Azar o seu. Mesmo quem não gosta do gênero terá de reconhecer que isso aqui vale a pena. Até porque será preciso toda a má vontade do mundo para não torcer pelo casal formado pelo Ryan Gosling e pela Emma Stone.

Assista, acima, ao trailer de 'La la land: Cantando estações'.

Cantando, eles nem são tudo isso. Mas pode apostar que os dois redefiniram o clichê de que “rolou uma química”. Subiram o nível. Não se sinta mal se, no fim de tudo, estiver torcendo para a vida imitar a arte e os astros repetirem na vida real aquele entendimento todo.

“Por que você diz ‘romântico’ como se fosse um palavrão?” A pergunta indignada feita pelo personagem do Ryan Gosling resume a ideia de “La la land”: uma tentativa bastante empenhada de redimir sentimentos e adjetivos usualmente considerados ridículos. Aqui, “nostálgico”, “ingênuo” e, sobretudo, “hollywoodiano” são indicativos de avaliação positiva e de dignidade – e não de imperfeição.

O plano parecia um equívoco: usar um gênero fora de moda (o musical) para celebrar a chamada “era de ouro de Hollywood” (preguiça) e, nas palavras do diretor e roteirista Damien Chazelle, retratar “sonhos” e “falar de paixão pela arte e paixão pelo amor, através da música e da dança”. Medo.

Mas “La la land”, apesar dos defeitos (detalhes a seguir), é bom. Justifica o status de campeão da atual temporada de premiações. Acabou de ganhar sete Globos de Ouro e é pré-favorito para o Oscar. É uma autocelebração de Hollywood que não existe para agradar só quem vota nos prêmios de Hollywood. 

 

Tanto falatório e estatueta fez o filme, que estava previsto para entrar em cartaz no Brasil em 19 de janeiro, ganhar sessões de pré-estreia a partir desta quinta-feira (12)

 

Saudosista

O resumo da história é o clichê dos clichês: garoto encontra garota. Emma Stone é uma aspirante a atriz que não passa em teste nenhum. Só chega perto da fama quando atende alguma estrela no café onde trabalha como atendente – o estabelecimento fica dentro de um estúdio de cinema. Uma sonhadora, né? Não, perdedora mesmo.

Já o Ryan Gosling é um pianista de jazz que só pensa em jazz e quer abrir um bar de jazz para salvar o jazz. Traduzindo: ele vive no passado – e do passado.

Os dois, então, se conhecem e, de fato, são impossivelmente fotogênicos juntos. “La la land” deve tudo ao carisma desta dupla. Ou quase, porque seu jovem diretor realmente não é fraco. Damien Chazelle, você se lembra, fez uma ótima estreia em “Whiplash – Em busca da perfeição” (2014), que ganhou três Oscar.

Agora, aos 31 anos, ele está melhor. O filme só parece ingênuo. Chazelle é detalhista e calculista. Às vezes, até cansa, mas no geral dá certo: o visual de “La la land”, muito colorido, não disfarça a mensagem e implora: “por favor, me veja no cinema, na maior tela possível e com o melhor som possível!”.

As referências onipresentes também estão ali para dizer que ninguém aqui é bobo: direta ou indiretamente, pelo nome ou não, são citados incontáveis astros e filmes antigos, como “Casablanca”, “Cantando na chuva”, “Juventude transviada” e até “A bela adormecida” (a animação de 1959).

Se tanto saudosismo não cansa, é porque “La la land” tem autoironia e usa o fato de se passar nos dias atuais para fazer piada. No meio de uma música "retrô-saudosista", aparece um toque de celular.

 

Falhas

"La la land" sofre do mal de toda obra que é apaixonada demais por si mesma. Na prática, significa que confia excessivamente na aparência e se esquece um pouco do conteúdo. Ou seja, o filme é melhor do que seu roteiro. Tem hora que falta motivação aos personagens, que muitas vezes parecem tomar as decisões apenas porque o roteiro mandou.

Exemplo: a pessoa sonha ser estrela de cinema, faz testes atrás de teste, e aí certo ela está no trabalho chato quando o alarme do celular, ela vai coferir e, uau!, tinha teste marcado mas ela esqueceu. Não faz nenhum sentido.

A elogiada cena de abertura é outra mostra do exibicionismo que seduz Chazelle. É um (aparente) plano-sequência com coreografia elaboradíssima, um monte de gente participando etc. Mas é um virtuosismo que tem muito de técnico e pouco de estético. É mais ginástica do que dança. Mais propaganda de refrigerante do que cinema.

Mas é injusto tomar "La la land" como sinônimo dessas acrobacias visuais. O filme vale nem que somente por duas cenas: a da festa na piscina, de chorar de rir (Ryan Gosling brilha muito ali, apesar de no geral a Emma Stone estar melhor), e a sequência final, trágica e romântica.

"La la land" pode ser ainda acusado de escapista ou alienado, em um momento que pede engamento (do que são prova os discursos do Globo de Ouro). Talvez isso atrapalhe na corrida pelo Oscar. Mas, se a estatueta vier, não será nem de longe um absurdo.

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